atualmente lendo:
Livro do desassossego — Fernando Pessoa
A descoberta do mundo — Clarice Lispector
Rubem Fonseca tem uma delicadeza talhante, uma percepção aguçada que reflete na literatura a decadência no reino da humanidade. Meu primeiro contato foi O Caso Morel, depois O Cobrador (o conto) e agora esse. Concordo sim, que existem passagens que soam desnecessárias, que não agregam muito na história. Mas vamos considerar o tempo político de Rubem; e veremos o que ele queria trazer com isso. As cenas carnais, cruéis, cínicas podem até não avançar a narrativa, mas avançam o choque, a quebra da anestesia literária.
Se ele não podia denunciar o poder, então denunciaria até o mais pequenino pedaço de carne do coração. Usou o carnal, o seco, como recurso talhante.
Um abraço, Rubem.
Quis ler esse conto de novo para verificar se as minhas antigas observações mantinham os mesmos fundamentos; e sim, é um texto incrível. Não é um conto doce; é amargo, seco, talhante, possível. A duração da narrativa é ótima, a imersão é ótima; esse é com certeza um dos meus contos preferidos. Curto muito o in media res e o desenvolvimento dessa sub-realidade.
Agora reafirmo o quão bem Digital Circus é inspirado em I Have no Mouth. Não sei dizer quem é pior: Caine ou AM.
Ótima coletânea para entender a poesia marginal como um dos alicerces da Literatura Contemporânea Brasileira e do Tropicalismo. Gostei bastante de me aprofundar no assunto.
Também tem meu haikai preferido do Leminski:
a noite
me pinga uma estrela no olho
e passa
E, já que trouxe um, deixo aqui outros:
É proibido pisar na grama
O jeito é deitar e rolar
(Chacal)
Discordância
Dizem que quem cala consente
eu por mim
quando calo dissinto
quando falo
minto
(Francisco Alvim)
Quero trazer um poema meu que adicionei no Os anos que ainda temos (contos). É mais um nanoconto do que um poema; talvez um poema-conto, mas taí pra quem quiser ler. Uma poesia-prosa marginal, só que baseada nas veredas contemporâneas.
TEUS OLHOS
Uma pena passar invisível por ti; cobiço teus olhos que encaram,
tão despretensiosamente, a tela azul do celular.
Esse livro tem muitas das minhas frases prediletas atribuídas à Clarice Lispector. Gostei muito do começo, perdi-me um pouco no meio e me encontrei no fim. Curto como a contação da trama subverte o estilo tradicional através do fluxo de consciência, embora não tenha ficado surpreso pelo elemento; já estou bem habituado com a literatura intimista. A leitura me desencadeou muitas abduções-reversas, que apliquei em Os anos que ainda temos (contos) e nas páginas matinais. Não vou mentir que prefiro outras obras da autora, sim, é verdade. Mas essa me surpreendeu tanto quanto as outras. Quem perdeu foi Otávio, pois Joana ganhou a si mesma.
Não entendo por que atribuem como poemas de Clarice as citações de frases suas. Não que frases não sejam poéticas; pelo contrário, são sim poesia. Mas me refiro a poesia escrita em versos. Bastou-me ler as crônicas de Clarice e também Perto do Coração Selvagem para encontrar poemas na definição tradicional. Não entendo por que poucos conhecem. Por exemplo:
"Margarida a Violeta conhecia,
uma era cega a outra bem louca vivia,
a cega entendia o que a louca dizia
e acabou vendo o que ninguém mais via!"
Só encontro esse poema pesquisando-o, mas não o vejo atribuído a Clarice como poema nos sites de citações. Infelizmente a dama só é canonizada, por muitos como prosadora.
Uma reafirmação da identidade intimista na literatura catarinense.
Na época eu não sabia que a editora fazia esse estilo de livros (refiro-me a coletâneas de contos, com vários autores); pensei que fosse um romance completo ou contos com história sequente, mas não era. Mas não me levem mal, há alguns contos bem escritos, sim, do início ao fim, mas também há outros que parecem só premsissas selecionadas. Pelo menos na capa ou página de rosto poderiam avisar que é uma seleção de contos. No fim, li só por ler.
Tive uma experiência muito única com esse livro em específico da Clarice, por isso ele recebe uma nota um pouquinho acima de G.H. e Água-viva, por exemplo.
...it called itself AM, emerging intelligence, and what it meant was I am ... cogito ergo sum ... I think, therefore I am."
Tem um desfecho bem surpreendente; e o caso é muito bem trabalhado. Mas julguei o desenvolvimento um tantinho lento demais, fato que cansaria novos leitores. É apenas um porém, no entanto, diante da grande obra que é.
Nota dez. Sem discussões.
Uma das únicas histórias em que eu me vi mais envolvido do que nunca. Por algum momento, fui um especialista na lore. Já não sei tanto, mas é uma série muito interessante.
Shinjitsu wa itsumo hitotsu!
Big Brother is watching you.