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Livro do desassossego - Fernando Pessoa
A descoberta do mundo - Clarice Lispector
Acho que demorou um pouco pra chegar na metáfora do campo de centeio, mas é só porque sou chato mesmo. Até faz sentido, mais sentido, onde ela foi posta. E é uma metáfora muito bonita, sim. Esse livro teve uma uso bem fora da curva pra mim: aprender preferência ao informal na escrita. Se tem uma gota de escrita oral na minha literatura... pois bem, cá está o livro responsável pelo feito.
Não torci pelo personagem, não muito. Mas quis saber até onde ele ia com a ideia dele. E essa curiosidade foi o que sustentou toda a minha leitura. É bem inteligente e até engraçado ver como ele se autoengana. Mas o Caulfield tem uma sensibilidade muito bonita e triste por dentro.
Não somos os primeiros nem os últimos a sentir nojo pelo comportamento humano. Podemos aprender muito com essas pessoas que registraram e refletiram suas dores. Assim como podemos repassar aos outros se tivermos algo a ensinar. E isso também é poesia, porque poético é o que é.
"A educação acadêmica vai te dar uma ideia do tamanho da sua mente." Se isso te serve, te cabe bem e pode ser vestido na sua mente; essa é a sua solução, sua paixonite alada ao mundo. Essa ideia é muito boa; uma pena que quem falou isso... bem... Quem leu sabe.
Isso é tudo.
Um livro altamente corrosivo em caso de mergulho. Um mergulho no lodo. No começo, me senti mal e estranho lendo esse livro; não pelo conteúdo... talvez também, mas mais pelo sentir. Que poder incrível com as palavras... Então essa é a habilidade que Dostô tem com elas. Agora entendo o que dizem sobre esse livro. É corrosivo, é doloroso, mas satisfatório ao mesmo tempo. Estar triste me faz sentir vivo e valorizar que estou bem.
As pessoas que dizem que é um livro fácil, provavelmente leram superficialmente. as pessoas que dizem que é um livro difícil; sinceramente, isso é muito relativo. Dá tanto trabalho ter uma leitura "fácil" quanto "difícil"; o que rotula isso afinal? Ah, mas simples não é. Não é uma obra simples. Sim, talvez seja um pouco hermético (mas bastantes elementos fazem mais sentido se puxarmos sua biografia e principalmente seus dez anos de exílio). E se você não quiser se perder, é aconselhável ler com uma distância ativa. Não vou mentir; eu mesmo boio às vezes com livros clássicos, em algumas partes. É completamente normal. Às vezes gostamos de autores clássicos sem entendê-los por completo. Por ser um livro com períodos difíceis e uma obra um pouco complexa no geral, precisei a todo momento do silêncio para me concentrar; sem ruídos ou o mínimo possível. Quero dizer que só li na quietude. Talvez tenha sido um dos únicos livros que eu tenha lido inteiro, a todo instante, com o silêncio. Devo fazer isso mais vezes.
Quando pensei que tinha acabado (imaginei que a edição tinha duas histórias separadas), estava só começando. Esse livro me desencadeou memórias que eu já tinha enfrentado, mas que precisei vencer de novo; e vencemos. Foi aí que vi: precisaria lê-lo meio distante. Também não preciso dizer que esse livro me rendeu boas ideias para uso criativo.
Inicialmente eu rotulei o protagonista anônimo como um Brás Cubas russo, mas me enganei e voltei atrás desse rótulo. Com esse personagem mesquinho, covarde, egoísta e até patético, Dostoiésvski basicamente quer mostrar que, se você crê que não existe livre árbitrio e vontade humana, é basicamente isso que acontece com a pessoa; nesse ponto que se chega. Bem... Não era exatamente o rótulo-brás-cubas que eu tinha suposto no início, mas, sinceramente, não tá muito longe. É o mesmo tipo de humano que se deixa nascer pela hipocrisia. Parece que Dostô também tinha o objetivo de mudar a Rússia e transformar o cenário ateísta e determinista da época. Notas do subsolo foi a virada de chave ao Dostoiésvski; grandes obras vieram depois dela, com uma voz mais vigorosa dele. Com certeza, subverteu o romance tradicional. Achei a terceira história, da segunda parte, bem parecida com uns trechos de Noites Brancas (que veio antes). Foi bonito.
Sinceramente, um grande "e daí?" ao narrador anônimo e suas perturbações vulcânicas. Se mostra todo o superior diferentão, mas mas seguiu uma área profissional "educadinha".
O narrador até quer largar a voz subterrânea, mas não consegue. Eu entendo esse trapo, mas não o defendo. Liberdade sem liberdade para errar, não é liberdade.
Nascemos das ideias.
Terminei muito reflexivo e satisfeito, realmente feliz com a realidade que vivo.
Mas ainda não sei o que vale mais: uma falsa liberdade ou um sofrimento profundo.
Duas vezes dois cinco.
Decidi ler na íntegra essas Epístolas das Escrituras. Paulo critica as ações da comunidade de Corinto, que ele mesmo fundou, envolvida em divisões internas, imoralidades e complicações morais; também descridos de Paulo como apóstolo de Cristo. Em verdade, não é necessária nenhuma prova. O apóstolo traz os valores cristãos como soluções verdadeiras a dar juízo aos Corintos/Coríntios.
Captei muitas ideias para usos literários, tanto intertextualidades quanto lições importantes. É interessante ver como alguns recursos contemporâneos na literatura já eram presentes aqui, como texto híbrido (em prosa e poesia) e ironia com aspas.
Acho o capítulo treze, da primeira Carta, um dos trechos mais lindos da literatura ocidental.
Também tem uma das minhas passagens preferidas sobre a metáfora do espinho na carne. Que sentido há em tirar um espinho na carne, se a graça já nos basta? É isso que nos mantém humildes. "Pois quando sou fraco, então é que sou forte." Orgulhar-me das fraquezas, dos obstáculos.
Certamente são escritos saborosos de se ler. Marana-tá.
Dessa vez, queria pegar um livro aleatório na biblioteca universitária, mas ainda das estantes de ficção brasileira. Dentre outros, esse me chamou bastante a atenção. Não sei explicar; só me chamou até ele. Admiro como o autor consegue trazer a polpa abstrata em descrições sólidas; acho isso difícil de fazer, pessoalmente, mas ele faz com uma maestria que impressiona. E a editora mandou bem na edição simples-contemporânea. Até mesmo a prosa é espelhada em estrutura, pois começa com um conto sobre superlua e termina com um de eclipse.
Algumas fontes consideram ele como pós-moderno, mas, a mim, já se enquadra muito mais na literatura contemporânea. Acredito nisso.
Descobrir aos poucos os simples e mais importantes segredos da existência... Será isso o que chamam de vida?
Tudo é vida.
— — — crônicas belíssimas. Algumas eu já tinha primeiras impressões, vindas dos contos ou de A Descoberta do Mundo, a coletânea. Atende muito bem a proposta; a diagramação simples mas com identidade me chamou a atenção. Não sei se preciso comentar muito, se já falo tanto dessa mulher maravilhosa. Cada interação inspira minha literatura intimista; o mero fôlego me inspira. Faz-me lembrar da poesia como arkhé da realidade.
Não vou dizer que foi um livro que me mudou, mas ele cumpre a proposta dele. Os pontos abordados são bem repetitivos, sob uma fórmula contemporânea que, se bem aplicada, funciona. Mas foi uma importante leitura; fez-me lembrar de noções essenciais para ter um bom relacionamento com qualquer pessoa, não apenas os românticos.
Rubem Fonseca tem uma delicadeza talhante, uma percepção aguçada que reflete na literatura a decadência no reino da humanidade. Meu primeiro contato foi O Caso Morel, depois O Cobrador (o conto) e agora esse. Concordo sim, que existem passagens que soam desnecessárias, que não agregam muito na história. Mas vamos considerar o tempo político de Rubem; e veremos o que ele queria trazer com isso. As cenas carnais, cruéis, cínicas podem até não avançar a narrativa, mas avançam o choque, a quebra da anestesia literária.
Se ele não podia denunciar o poder, então denunciaria até o mais pequenino pedaço de carne do coração. Usou o carnal, o seco, como recurso talhante.
Um abraço, Rubem.
Quis ler esse conto de novo para verificar se as minhas antigas observações mantinham os mesmos fundamentos; e sim, é um texto incrível. Não é um conto doce; é amargo, seco, talhante, possível. A duração da narrativa é ótima, a imersão é ótima; esse é com certeza um dos meus contos preferidos. Curto muito o in media res e o desenvolvimento dessa sub-realidade.
Agora reafirmo o quão bem Digital Circus é inspirado em I Have no Mouth. Não sei dizer quem é pior: Caine ou AM.
Ótima coletânea para entender a poesia marginal como um dos alicerces da Literatura Contemporânea Brasileira e do Tropicalismo. Gostei bastante de me aprofundar no assunto.
Também tem meu haikai preferido do Leminski:
a noite
me pinga uma estrela no olho
e passa
E, já que trouxe um, deixo aqui outros:
É proibido pisar na grama
O jeito é deitar e rolar
(Chacal)
Discordância
Dizem que quem cala consente
eu por mim
quando calo dissinto
quando falo
minto
(Francisco Alvim)
Quero trazer um poema meu que adicionei no Os anos que ainda temos (contos). É mais um nanoconto do que um poema; talvez um poema-conto, mas taí pra quem quiser ler. Uma poesia-prosa marginal, só que baseada nas veredas contemporâneas.
TEUS OLHOS
Uma pena passar invisível por ti; cobiço teus olhos que encaram,
tão despretensiosamente, a tela azul do celular.
Esse livro tem muitas das minhas frases prediletas atribuídas à Clarice Lispector. Gostei muito do começo, perdi-me um pouco no meio e me encontrei no fim. Curto como a contação da trama subverte o estilo tradicional através do fluxo de consciência, embora não tenha ficado surpreso pelo elemento; já estou bem habituado com a literatura intimista. A leitura me desencadeou muitas abduções-reversas, que apliquei em Os anos que ainda temos (contos) e nas páginas matinais. Não vou mentir que prefiro outras obras da autora, sim, é verdade. Mas essa me surpreendeu tanto quanto as outras. Quem perdeu foi Otávio, pois Joana ganhou a si mesma.
Não entendo por que atribuem como poemas de Clarice as citações de frases suas. Não que frases não sejam poéticas; pelo contrário, são sim poesia. Mas me refiro a poesia escrita em versos. Bastou-me ler as crônicas de Clarice e também Perto do Coração Selvagem para encontrar poemas na definição tradicional. Não entendo por que poucos conhecem. Por exemplo:
"Margarida a Violeta conhecia,
uma era cega a outra bem louca vivia,
a cega entendia o que a louca dizia
e acabou vendo o que ninguém mais via!"
Só encontro esse poema pesquisando-o, mas não o vejo atribuído a Clarice como poema nos sites de citações. Infelizmente a dama só é canonizada, por muitos como prosadora.
Uma reafirmação da identidade intimista na literatura catarinense.
Na época eu não sabia que a editora fazia esse estilo de livros (refiro-me a coletâneas de contos, com vários autores); pensei que fosse um romance completo ou contos com história sequente, mas não era. Mas não me levem mal, há alguns contos bem escritos, sim, do início ao fim, mas também há outros que parecem só premsissas selecionadas. Pelo menos na capa ou página de rosto poderiam avisar que é uma seleção de contos. No fim, li só por ler.
Tive uma experiência muito única com esse livro em específico da Clarice, por isso ele recebe uma nota um pouquinho acima de G.H. e Água-viva, por exemplo.
...it called itself AM, emerging intelligence, and what it meant was I am ... cogito ergo sum ... I think, therefore I am."
Tem um desfecho bem surpreendente; e o caso é muito bem trabalhado. Mas julguei o desenvolvimento um tantinho lento demais, fato que cansaria novos leitores. É apenas um porém, no entanto, diante da grande obra que é.
Nota dez. Sem discussões.
Uma das únicas histórias em que eu me vi mais envolvido do que nunca. Por algum momento, fui um especialista na lore. Já não sei tanto, mas é uma série muito interessante.
Shinjitsu wa itsumo hitotsu!
Big Brother is watching you.